2017/07/18

Tre pistole contro Cesare (1967 / Realizador: Enzo Peri)

Com o sucesso esmagador de “Il buono, il brutto, il cattivo” disparou a produção de westerns em que o mote homens em missão com traições ao minuto, se imitava à descarada. Filmes como “Vado... l'ammazzo e torno”, “Ammazzali tutti e torna solo” ou “Professionisti per un massacro”; serão porventura os exemplares mais conhecidos do público, mas muitos mais - e piores - foram feitos nos anos de ouro do western europeu. Este “Tre pistole contro Cesare” aparece nesse segundo crivo, bem menos interessante que qualquer um dos mencionados, muito por culpa do pouco experiente Enzo Peri, que assumia aqui pela segunda vez a função de realizador.

Nesta aventura os protagonistas são três meios-irmãos desconhecedores da afinidade com cada um dos outros. Uma notificação de um advogado dá-lhes a nova de que herdaram uma mina do seu velho pai. Unidos sobre o pretexto de encontrarem o ouro que supostamente existirá na dita, enfrentarão o espalhafatoso vilão Giulio Cesare Fuller, que apropriadamente enverga as vestes de um verdadeiro imperador romano. 

O "imperador" Enrico Maria Salermo alivia a pressão no seu harém. 

Este “Julio César” é certamente uma das mais excêntricas personagens que o western-spaghetti viu parir. O papel coube a Enrico Maria Salermo, que lamentavelmente não consegue salvar a personagem do ridículo, na minha opinião o ponto mais merdoso do filme. O trio da irmandade é encabeçado pelo americano Thomas Hunter, que recorde-se teve uma boa passagem pelo western de Carlo Lizzani, “Un fiume di dollari”. Julgo que o bom look do actor lhe deveria ter assegurado mais e melhores papéis no género, mas não aconteceu ficando-se o saldo entre estes dois e mais um telefilme – “Carlos” – lançado já nos anos setenta e onde já nem assume a liderança do elenco.

Thomas Hunter a mandar tetra balázio com a sua geringonça.

Hunter é aqui coadjuvado pelo havaiano James Shigeta que interpreta Kato (1), o irmão nipo-americano. Com a colocação de um actor “asiático” no elenco principal, a produção parece tentar fazer uma nova aproximação do western com o cada vez mais emergente cinema de acção asiático (2). Mas sejamos francos, neste caso a adição pouco ou nada acrescentou à acção do filme, uma vez que as cenas de pancadaria farão bocejar o menos exigente dos fãs do cinema de kung-fu. Desengane-se aquele que avaliar o filme pelo fabuloso poster promocional, na verdade o filme é chato como a potassa; além da particularidade da arma usada por Hunter e pela curiosidade de as rodagens terem sido parcialmente rodadas na Argélia (3), pouco ou nada poderei dizer em seu favor. Ainda assim pelo bizarro da coisa, sei que interessará a alguns dos cinéfilos mais inveterados, saibam esses que já existe por aí pelo menos um DVD com o dito (4).

(1) Em 1996-1967 a ABC exibia a série Green Hornet” com Bruce Lee no papel de Kato. Provavelmente terá surgido daí a referência.
(2) Os Shaw Brothers Studios por estes anos já tinham lançado dezenas de filmes de kung-fu/wuxia, o clássico “One-Armed Swordsman” era lançado neste mesmo ano de 1967.
(3) No Dizionario del western all'italiana, Marco Giusti recorda que as filmagens derraparam para Agosto, com temperaturas insuportáveis para actores e equipe técnica. 
(4) Edição da alemã Wild Coyote. Detalhes aqui: https://www.spaghetti-western.net/index.php/Tre_pistole_contro_Cesare/DVD

2017/07/04

Carambola, filotto... tutti in buca (1975 / Realizador: Ferdinando Baldi)

Outro registo da fase mais patética, mais deprimente e mais estúpida dos westerns-spaghetti. Coby e Len, aliás, Antonio Cantafora e Paul Smith, respetivamente, querem imitar Trinitá e Bambino. Coby e Len são a contrafação da dupla de sucesso interpretada por Terence Hill e Bud Spencer. Para a imitação ser o mais fiel possível há que ter dois protagonistas com traços fisionómicos muito específicos: um é elegante, loiro, com olhos azuis e muito ágil. O outro é barbudo, gordo, atarracado e mal-humorado. O realizador Ferdinando Baldi, nestes anos, andava armado em macaco de imitação apenas para tentar ganhar uns trocos. Coby e Len levam uma vida de pura vadiagem. Quando não estão a discutir e a brigar entre si, só pensam em comer, beber, jogar bilhar / snooker e coçar a micose. Anseiam chegar a uma cidade para fazer exatamente isso mas quando chegam… a cidade está deserta. A desilusão provoca mais brigas entre ambos. Subitamente, um pelotão do exército chega a essa cidade fantasma para praticar tiro ao alvo porque possuem uma arma nova: uma mota equipada com uma metralhadora!

Antonio Cantafora, uma espécie de Trinitá dos muito pobres!

Quando os militares estão distraídos, Coby e Len roubam a mota e fogem mas como a mota não tem travões escavacam tudo por onde passam. Finalmente chegam a outra cidade (desta vez habitada) e, claro está, armam confusão num ápice. Até ao final do filme temos muitas cenas de punhada, mesas e cadeiras partidas, espelhos desfeitos, barris de whisky feitos em pedaços, marradas na parede e humor bacoco com soldados em ceroulas. Tal como a dupla original, também Coby é especialista em aviar chapadas na cara e Len é perito em golpes com a pança e murros à pedreiro.

Pistolas!! Muitas pistolas!!

Há também algumas insinuações de cariz sexual quando Len se põe a fazer bolos, o que deixa uma gaja histérica com a rata aos pulos! Quilos de farinha pelo ar, ovos a voar, creme de bolos a esguichar na cara, parvoíce em doses bem generosas… eis a receita deste filme. Finalmente, um conselho para o Signor Ferdinando Baldi: tenha juízo, homem!!

2017/06/06

Take A Hard Ride (1975 / Realizador: Antonio Margheriti)

O que há a dizer sobre o filme “Cavalgada Fantástica” (título em Portugal)? Primeiro que tudo, é um registo que se enquadra muito mais numa matriz americana do que nas características europeias (leia-se, italianas). O veterano Lee Van Cleef, conhecido pelo seu nariz aguçado de falcão e pela sua calvície, apresenta-se aqui com uma longa cabeleira grisalha e nunca tira o chapéu. Jim Brown, ex-jogador profissional de futebol americano (jogou entre 1957 e 1966), já tinha alguns westerns no seu “curriculum vitae”. Fred Williamson é outro ator negro que abandonou a liga profissional de futebol americano (foi atleta entre 1960 e 1967) e dedicou-se ao cinema de ação. Brown e Williamson chegaram a protagonizar vários filmes policiais nos anos 70, a década dourada do chamado “Blaxploitation”. 

Brown e Williamson em evidência.

Tinha chegado a hora de fazerem um western juntos. O processo não foi nada fácil. O estúdio não queria ceder às exigências dos dois atores, que queriam um realizador negro a comandar. Finalmente chegou-se a um entendimento “não com um realizador branco, não com um realizador negro mas sim com um realizador cinzento”, como afirmaria anos mais tarde Antonio Margheriti. Digamos que entrou em vigor a neutralidade italiana (na pessoa de Margheriti) em vez da habitual e tão bem conhecida neutralidade suíça. 

Todos em digressão. 

A história centra-se em Pike (Jim Brown), um vaqueiro que, após a morte do seu patrão Bob Morgan (morte natural, imagine-se!), tem como missão levar o dinheiro do gado (86 000 dólares) à viúva. A notícia espalhou-se pela região (até no Velho Oeste há linguarudos) e muito pessoal vai atrás dele para lhe roubar as verdinhas. Tyree (Fred Williamson) é um jogador de cartas todo janota (ou “dandy”, como agora é moda chamarem a essa seita) que se une a Pike durante toda a viagem. O vaqueiro, além de perceber de gado, também percebe de artilharia. O finório, além de perceber de baralhos de cartas, idem. 

O cabeludo Lee Van Cleef. 

No encalço de ambos está também Kiefer, um caçador de prémios que o público nunca chega a entender o que realmente pretende. A dama em apuros é Catherine Spaak, que não se aproxima da ousadia e do carisma de atrizes como Raquel Welch ou Marianna Hill. Filmado nas Canárias e no Arizona, “Take a Hard Ride” tem três bons atores, um excelente realizador mas paradoxalmente é um filme pouco conseguido e pouco emocionante. Fraquinho, fraquinho…

2017/06/01

Oito anos de "Por um punhado de euros"


Há oito anos atrás o blogue dava os seus primeiros passos. A teimosia de escrever coisas sobre filmes empoeirados parecia uma ideia condenada ao fracasso mas sem sabermos bem como, nem porquê, passados todos estes anos ainda cá estamos. Os últimos meses foram atribulados, o nascimento de um filho muda as nossas vidas mas felizmente o espírito de equipa tem garantido um caudal mais ou menos fluente.

O fôlego pode ser menor mas continuamos perseverantes no objectivo de continuar a inundar este cantinho da internet com saraivadas de balas, pancadaria e muito pistoleiro trombudo. Obrigado aos resistentes que ainda estão desse lado. Viva o western-spaghetti!

2017/05/23

Sette pistole per un massacro (1967 / Realizador: Mario Caiano)

Esta é a história de Will Flaherty, um homem falsamente acusado pelo assalto a um banco e assassinato dos seus dois clérigos. Três anos passam e Will evade-se da prisão com o propósito de procurar os verdadeiros gatunos. Mas de regresso a Little Tucson tem tudo menos uma recepção calorosa e palavras de conforto. Porém, a sua estadia há-de se prolongar por aqueles lados, é que para azar dos seus patrícios, um bando de foras-da-lei ataca novamente o banco. Os larápios dão-se mal com o golpe e batem com o queixo no chão ao verificarem que o cofre está vazio, resolvem então sequestrar toda a população da cidade. Et voila, volte de face, e o enjeitado passa a ser a única hipótese de salvação para os habitantes da pequena cidade.

Craig Hill em apuros.

Este era o único western de Mario Caiano que ainda não tinha riscado da lista, e como já desconfiava é enfadonho de morte. Irritante sobretudo pelo uso e abuso de cenas de pancadaria em ambiente de saloon e demais cantarolices. Ao habitué, Craig Hill, coube o papel desse tal Will Flaherty, que diga-se, mais parece uma reprise medíocre da personagem de Giuliano Gemma em “Adios Gringo”. Aliás, o título internacional do filme – “Adios Hombre – parece ele mesmo um encosto premeditado ao filme de Giorgio Stegani, que como se sabe fez mossa nas bilheteiras poucos anos antes do lançamento deste.

Will Flaherty (Craig Hill) espreme a verdade de Luke (Piero Lulli)

Pessoalmente até tenho o senhor Hill no goto, muito por culpa do cunho que deixou em alguns dos seus primeiros westerns-spaghetti, sobretudo os “Lo vogilo morto”, “Per il gusto di uccidere” ou “Quindici forche per un assassino”. Mas é claro que a coisa aqui pia mais fininho. Ao contrário desses três exemplares, este “Sette pistole per un massacro”, é um filme em tudo rotineiro e sem essa bengala, o californiano nem aquece nem arrefece. Curiosamente é a vilanagem que ganha em quantidade e qualidade (Eduardo Fajardo, Piero Lulli, Roberto Camardiel, Nello Pazzafini). Mas enfim, está visto!

2017/05/09

Shango, la pistola infallibile (1970 / Realizador: Edoardo Mulargia)

Primeiro ponto: o nome do protagonista deste filme não é “Gringo” nem “Ringo” e nem sequer “Garringo”. Segundo ponto: o protagonista também não se chama “Django” ou “Cjamango” ou até mesmo “Durango”. Terceiro ponto: o ator Anthony Steffen, uma das grandes pérolas do western-spaghetti, desta vez encarna o personagem “Shango” (será uma mistura entre “Shane” e “Django”?), um tipo teso que nem um carapau cujo colt que empunha dispara um inesgotável número de balas sem recarregar uma única vez! Anthony Steffen e o realizador Edoardo Mulargia escreveram em parceria o argumento. E o que escreveram eles? A Guerra Civil Americana já terminou há seis meses. Num ponto isolado do país, um pelotão de soldados sulistas, liderados pelo fanático Major Droster, continuam com as armas em riste. 

Tortura à moda mexicana. 

Mercenários mexicanos sob o comando de Martinez aliaram-se aos rebeldes sulistas para ver se ganham uns trocos extra. Ambos os grupos mandam e desmandam numa aldeia onde moram apenas pobres agricultores mexicanos. O telégrafo não funciona e por isso é impossível saber notícias da frente de combate. O Major Droster é o único que sabe que a guerra já terminou mas não diz nada a ninguém porque o gajo não passa de um fanático de merda! 

Eduardo Fajardo, o habitual vilão de serviço.

Na floresta daquela zona há uma gaiola pendurada nas árvores. Está um homem lá dentro (prisioneiro, obviamente). O homem está fisicamente debilitado e não se lembra do que lhe aconteceu. O Major Droster liberta-o para que o prisioneiro sirva de bode expiatório e que seja acusado de matar o telegrafista. Mas o prisioneiro foge e deixa militares e mexicanos à rasca! Acolhido por uma família de camponeses, o homem recupera as suas faculdades físicas e mentais. 

Anthony Steffen no seu registo habitual. 

Ele é Shango, um Ranger americano que caiu numa emboscada quando liderava um pelotão de soldados ianques. Shango também sabe que o armistício foi há seis meses mas com fanáticos é impossível negociar. O colt de Shango é que vai falar alto e bem certeiro, disparando de todas as maneiras, feitios e posições (de pé, sentado, deitado no chão ou dentro de uma saca de serapilheira!). Quarto e último ponto: sendo conhecedor da filmografia western de António Luís de Teffé Von Hoolholtz, vulgo Anthony Steffen, diria que este é um dos seus melhores momentos.

2017/04/03

È tornato Sabata... hai chiuso un'altra volta (1971 / Realizador: Gianfranco Parolini)

O Major Sabata deixou a vida militar e agora trabalha num circo! Quando a sua companhia circense chega a uma pequena cidade do Texas, Sabata encontra o tenente Clyde, um tipo manhoso que, curiosamente, deve 5 000 dólares (dívida de jogo) ao seu ex-oficial superior. Sabata quer o seu dinheiro de volta mas Clyde está mais teso do que um carapau. Mas quem anda a nadar em dinheiro naquela cidade é Joe McIntock, um empresário irlandês cabecilha de um grupo de gorilas que ganham poder à conta de ameaças e da cobrança de impostos ridículos. E assim, durante 105 minutos, temos de um lado da barricada Sabata, Clyde, Bronco (um gordo barbudo que toca bombo nas ruas) e dois acrobatas vestidos à empregado de café. Do outro lado temos o irlandês ruivo e muito católico McIntock e os seus acólitos. Em território neutro estão várias mulheres bem boas sempre dispostas a mostrar as pernas e o rego das mamas!

Sabata e a sua infalível Derringer!

Este é o segundo filme do personagem “Sabata” (terceiro se contarmos com “Índio Black” de Yul Brynner) e, francamente, é o mais fraco do lote. O estilo do realizador Gianfranco Parolini (pseudónimo Frank Kramer) é mais do que notório, com os seus imprescindíveis acrobatas e artistas de circo. O compositor Marcello Giombini é o responsável por um registo musical bem alegre, aliás, quase marialva! Para fundamentar o que afirmo, eis o refrão da canção do filme: 

“If you want to get money 
If you want to get rich 
If you want a good life 
You got to be a son of a b….”

Propaganda francófona:

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